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  • Psicólogo Marcelo Garcia de Souza

DEPRESSÃO...O MAL DO NOSSO SÉCULO!

Updated: Dec 3, 2020


De acordo com o "MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS" (DSM-5), a depressão possui como característica: "...a presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo."

Mas de certa forma, todos nós em algum momento da vida já nos sentimos vazios, tristes, irritados, sem condições de pensar de maneira clara, ou até nos sentimos com indisposição para realizar as tarefas que comumente desempenhamos no dia a dia. Então, o que de fato define se realmente estamos deprimidos ou não?

Bom, primeiramente, cabe lembrar que um diagnóstico preciso é feito por profissional capacitado (médico psiquiatra ou psicólogo), com entrevistas e avaliações específicas para se constatar o quadro depressivo ou não.

Porém, o que de fato faz com que se caracterize como uma patologia (doença) ou não, é a duração e a intensidade a qual estamos expostos aos sintomas.

Vale sempre lembrar que quando falamos de algum desajuste psicológico, temos que levar em consideração as esferas biológica, psicológica e social do indivíduo, que influenciam e definem o quadro clínico depressivo.

No campo biológico, o profissional indicado para fazer a sondagem é o médico. Muitas vezes, um quadro hormonal deficitário (como um problema na glândula tireoide), por exemplo, pode ocasionar a depressão. Se o problema for apenas biológico, um correto tratamento medicamentoso pode eliminar a doença. Por exemplo, se alguém foi diagnosticado com hipotireoidismo e fez o correto tratamento com um endocrinologista, pode ter os sintomas depressivos resolvidos. Por isso uma avaliação médica, principalmente em casos de sintomas graves, são imprescindíveis.

Ainda no ramo biológico, quando o indivíduo está deprimido, o funcionamento dos neurônios do sistema nervoso dele passa por uma descompensação neuroquímica, e desse modo, a depressão é instalada por essa deficiência fisiológica. Com o avanço das neurociências, ficamos sabendo que os neurônios funcionam por pulsos elétricos, mas que a comunicação entre um neurônio e outro é feita por processo químico, por trocas de compostos na região denominada "fenda sináptica". De um lado, um neurônio libera uma série de compostos químicos (neurotransmissores) que são capturados por receptores de outros neurônios, e assim sucessivamente.




Problemas de várias ordens nessa transmissão neuronal são tidos como os mecanismos de instalação de depressão. Principalmente quando se trata da falta de um dos neurotransmissores mais famosos, a "Serotonina".

Porém, o diagnóstico por exames clínicos desses problemas ainda não são cabíveis, fazendo com o que os diagnósticos sejam realizados por meio de escalas em que os sintomas são relatados pelos pacientes, e desse modo, pelo conhecimento da fisiologia dos neurotransmissores já estudados e suas faltas, tenta-se aplicar o melhor tratamento medicamentoso possível para a resolução dessa desordem.

A causa dessas patologias de cunho neuroquímico vão desde desequilíbrios fisiológicos pelo próprio organismo, até mesmo por reflexos de pensamentos e sentimentos dos indivíduos. Pessoas que passaram por estresse por longo tempo, tristezas e angústias, ou com pensamentos decorrentes de negativismos, podem com o decorrer do tempo apresentar desordens de cunho neurofisiológicos (lembre-se, “podem”, pois não é uma condição certeira que vai acontecer.)

Uma vez instalada essa patologia, não adianta apenas dizer "tenha bons pensamentos... viva coisas boas e olhe o lado bom da vida... tenha fé que vai melhorar". Do mesmo modo que um estresse, uma crise emocional pode levar à uma gastrite, uma úlcera, e essa gastrite precisa ser tratada com medicamentos e mudanças de hábitos, a depressão precisa de avaliação para possível intervenção medicamentosa caso necessário. Esse trabalho quem faz é o médico psiquiatra.

Como dito, a depressão pode ser formada por inúmeros fatores. Pensamentos negativos, dificuldade de adaptação em novo ambiente, traumas, perdas significantes, entre outros, são aspectos que podem levar a depressão. O ideal, é que ao menor sinal de sintomas, um profissional como o psicólogo seja consultado, para que, caso a doença não tenha sido instalada, a psicoterapia faça com que os sintomas sejam amenizados e que a pessoa consiga encontrar soluções para as questões às quais vêm passando sem que haja necessidade de se chegar "ao fundo do poço". Mas caso seja verificado a necessidade, inclusive, de intervenção medicamentosa, o psicólogo encaminhará o paciente para o psiquiatra, para que ela faça o trabalho do tratamento fisiológico, enquanto permanecesse no tratamento psicológico, tratando na raiz os possíveis causadores dos transtornos, quando estes são de cunho psicossocial.

No Brasil, por exemplo, os dados sobre a depressão são alarmantes (como o são em torno de todo o mundo). Estima-se que por volta de 5,8% da população brasileira (dados da Organização Mundial de Saúde de 2018) tenha depressão, algo por volta de 12.000.000 (doze milhões) de pessoas que passam por este problema. Mundialmente, a média é de 4,4% ou seja, 320.000.000 (trezentos e vinte) milhões de pessoas passem por esse mal. Outro dado importante, é que o Brasil possui a estimativa de 9,3% da população, ou seja, mais de 19.000.000 (dezenove milhões) de pessoas com problemas relacionados com transtornos de ansiedade. (projeções do ano de 2017, com população do Brasil em torno de 209.000.000 (duzentos e nove milhões de habitantes).

A ansiedade é um tema muito relevante que retomaremos em próximos posts, mas vale ressaltar que indivíduos ansiosos, podem desenvolver transtorno de pânico, entre outros, doenças que possuem comorbidade com a depressão, ou seja, indivíduos que desenvolvem transtornos de ansiedades podem com facilidade desenvolver a depressão de maneira concomitante.

Vale lembrar que a depressão é um grande disparador dos atos de suicídio na atualidade. O indivíduo, cansado de lidar com o mal estar da doença, a falta de sentido com a vida, a falta de vontade até de lidar com o que lhes dava prazer ou felicidade, leva os indivíduos a essa prática que põe fim a própria vida, como forma de abreviar o sofrimento da dor por qual passam.

Suicídio também é um tema complexo que retomaremos em próximos posts, devido a complexidade e a necessidade de falarmos cada vez mais sobre.

Os sintomas mais clássicos da depressão são:


  • - humor depressivo ou irritabilidade, ansiedade e angústia;

  • - desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas;

  • - diminuição ou incapacidade de sentir alegria e prazer em atividades anteriormente consideradas agradáveis;

  • - desinteresse, falta de motivação e apatia;

  • - falta de vontade e indecisão;

  • - sentimentos de medo, insegurança, desesperança, desespero, desamparo e vazio;

  • - pessimismo, ideias frequentes e desproporcionais de culpa, baixa autoestima, sensação de falta de sentido na vida, inutilidade, ruína, fracasso, doença ou morte. A pessoa pode desejar morrer, planejar uma forma de morrer ou até mesmo tentar suicídio;

  • - interpretação distorcida e negativa da realidade: tudo é visto sob a ótica depressiva, um tom “cinzento” para si, os outros e seu mundo;

  • - dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e esquecimento;

  • - diminuição do desempenho sexual (pode até manter atividade sexual, mas sem a conotação prazerosa habitual) e da libido;

  • - perda ou aumento do apetite e do peso;

  • - insônia (dificuldade de conciliar o sono, múltiplos despertares ou sensação de sono muito superficial), despertar matinal precoce (geralmente duas horas antes do horário . habitual) ou, menos frequentemente, aumento do sono (dorme demais e mesmo assim fica com sono a maior parte do tempo);

  • - dores e outros sintomas físicos não justificados por problemas médicos, como dores de barriga, má digestão, azia, diarreia, constipação, flatulência, tensão na nuca e nos ombros, dor de cabeça ou no corpo, sensação de corpo pesado ou de pressão no peito, entre outros.


Estima-se que no mundo, 1 em cada 5 pessoas (20% da população) desenvolvem o transtorno depressivo em algum momento da vida. (dados site do Ministério da Saúde do Brasil).

Não há também como não contar com que problemas de cunho social promovam aumento da depressão. Crises econômicas que levem à desemprego, guerras, ou governos ditatoriais, podem acentuar o numero de depressão na população em decorrência dos transtornos que ocasionam.

Hoje, por exemplo, é constatado o aumento vertiginoso de depressão e suicídio entre os idosos no Chile que perderam a aposentadoria com a mudança na lei do benefício no país chileno. Ou mesmo a população da Venezuela, que passa por uma verdadeira ditadura com recessão econômica em que a população não tem nem mesmo o que comer, levando ao desespero, falta de perspectiva, ou outros fatores que deprimem a população diante de tanta miséria e falta de humanidade.

Um dos sintomas mais marcantes da depressão que identifico na minha prática clínica é a PERDA DA VONTADE. Diferenciemos aqui vontade de desejo, sendo o desejo uma necessidade efêmera, que geralmente proporciona prazer imediato, mas que se esvai em estante breve quando o objeto desejado é conseguido. Desejo, é vontade de comer um prato específico, adquirir um bem, estar em uma praia neste exato momento, por exemplo. Vontades, são realizações que trazem crescimento ou sentido para alma. Fazer um novo curso, passar mais tempo com a família, conquistar uma promoção ou trabalho melhor, adquirir hábitos saudáveis, entre outros, são exemplos de vontade.

A pessoa deprimida não tem vontade nem mesmo de desempenhar tarefas que antes lhe geravam satisfação pessoal. É comum a pessoa deprimida não sentir satisfação em estar entre entes queridos, entre amigos... Falta ânimo para se desenvolver em uma atividade gratificante, em buscar crescimento em um trabalho ou algo do tipo. Em casos mais graves, a pessoa nem mesmo tem a sua fisiologia corporal disponível para levantar-se, transitando entre um estado de letargia, onde nem mesmo o sono, ou o levantar-se da cama é possível, devido às dores e falta de energia que o corpo sente. Assemelha-se a uma prisão dentro do próprio corpo, onde a alma não encontra um lugar sequer de alento.

A psicologia tem um papel importantíssimo no tratamento desse processo. Simplesmente, às vezes processos psicológicos que emergem do fundo de nossa alma, proporcionam o aparecimento da depressão.

Existem várias escolas de psicologia (como já descrito em posts anteriores), porém, no modo como trabalhamos com a psicologia analítica, entendemos que no estado depressivo, a energia psíquica (energia responsável por todas nossas atividades enquanto ser humano, desde a física até a mental), fica à disposição em grande parte do inconsciente. E estando essa energia em grande parte no nosso inconsciente, deixa ela de atuar de maneira mais incisiva em direção a realidade, ao mundo externo, e de certa forma ativa muitos dos nossos complexos; sendo estes muitas vezes sombrios, em decorrência do nosso passado evolutivo da humanidade. Daí muitas vezes o nosso estado de pânico, de medo da vida; das nossas fantasias, que com o princípio da realidade são infundadas, mas que para quem as vive, são reais e ameaçadora, dentre outros aspectos da nossa psique que poderemos abordar de uma maneira melhor em outro momento.

Estando a energia mais voltada para o inconsciente, aspecto vivo da nossa essência, não ativa somente os aspectos sombrios negativos, mas também, muitas vezes aquilo que há de mais divino em nós. É comum relatos de pessoas, que depois que passaram pelo vale da depressão, dizerem que tiveram também experiências maravilhosas como a de um renascimento, de que a vida depois desse episódio nunca mais seria a mesma. É como se o ego (complexo que lida com a realidade) estivesse estagnado, e o indivíduo retornasse ao "fundo do poço", como forma de haurir novos recursos de um solo que já estava árido, e sem chuvas a muito tempo.

“O propósito secreto dessas trevas que se avizinham geralmente é tão invulgar, tão especial e inesperado que, via de regra, só se consegue percebê-lo por meio dos sonhos e fantasias que brotam do inconsciente. Se focalizarmos nossa atenção sobre o inconsciente sem suposições precipitadas ou rejeições emocionais, o propósito há de surgir um fluxo de imagens simbólicas de grande proveito. Mas nem sempre isso acontece. Algumas vezes aparece, inicialmente, uma série de dolorosas constatações do que existe de errado em nós e em nossas atitudes conscientes. Temos então que dar início a esse processo engolindo todo tipo de verdades amargas. "(Jung 2008, p. 221)

É comum, após o indivíduo ter passado pela depressão, relatar que hoje tem uma atitude mais adaptada a vida, que hoje consegue dar muito mais importância a eventos que antes nem sequer eram percebidos, que consegue lidar de maneira mais assertiva diante dos desafios da vida, ou que, mesmo que tenha passado por um terreno muito cinza, que a vida hoje tem "um colorido" muito mais vivo do que antes de passar pelo transtorno.

Portanto, contar com um psicólogo diante dessa jornada, não faz com que o profissional receba todos os méritos sobre a melhora da patologia, mas antes disso, é contar com o profissional que atua como um guia diante dos caminhos sombrios da alma, iluminando caminhos mais obscuros, e alertando sobre possíveis caminhos sem saída em labirintos ou com armadilhas perigosas. São essas imagens simbólicas para retratar um intrincado processo psicológico ao qual o profissional se debruça, diante dos aspectos psicológicos ao qual o paciente lida no decorrer do processo.

“Como se sabe, o terapeuta se relaciona com outro sistema psíquico, não só para perguntar, mas também para responder; não mais como superior, perito, juiz e conselheiro, mas como alguém que vivencia junto, que, no processo dialético, se encontra em pé de igualdade com aquele que ainda é considerado o paciente.” (Jung 2011, p. 18)

Então, a depressão é um transtorno, uma doença, que deve ser prevenida na medida do possível. Porém, caso venhamos a ser acometidos por esse mal, tenhamos calma, mas não deixemos nunca de pedir ajuda a quem está à nossa volta, e principalmente, a procurar por atendimento especializado; pois depois de passada a tempestade, a vida pode ser ainda mais satisfatória do que antes desse mal.

Lógico, cada caso é um caso, e em um breve texto não há como abranger toda a complexidade que cada caso demanda, mas serve apenas para termos uma noção do que é depressão e como lidar. Não cansarei de falar, procure um profissional!

Também, vale lembrar que práticas saudáveis como exercícios físicos, a prática da fé e da religiosidade, um bom convívio social, alimentação adequada, exposição à luz solar, práticas meditativas como yoga, mindfulness, entre outros, são fatores que em muito ajudam a prevenir a depressão.

Esse foi só o início. Esse temas está longe de ter sido esgotado, e voltaremos a falar de depressão ainda por muitas vezes!

"Para mim, a verdadeira terapia só começa depois de examinada a história pessoal. Essa representa o segredo do paciente, segredo que o desesperou. Ao mesmo tempo, encerra a chave do tratamento. É, pois, indispensável que o médico saiba descobri-la. Ele deve propor perguntas que digam respeito ao homem em sua totalidade e não limitar-se apenas aos sintomas. Na maioria dos casos, não é suficiente explorar o material consciente. Conforme o caso, a experiência de associações pode abrir o caminho à interpretação dos sonhos”. (Jung, 2006, p. 144)"

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Marcelo Garcia de Souza - 06/05/2019


Bibliografia

Jornal da USP

https://jornal.usp.br/atualidades/brasil-vive-surto-de-depressao-e-ansiedade/ (acessado em 02.05.2019)

Jung, C. G. (2006). Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Jung, C. G. (2008). O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Jung, C. G. (2011). A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes.

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais DSM-5 (Porto Alegre : Artmed, 2014.)

Portal sobre a depressão na organização de saúde no Brasil.

http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/saude-mental/depressao (acessado em 02.05.2019)



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